domingo, 15 de março de 2015

Queima do Alho (Receita para 10 pessoas)

Defensoras das antigas tradições da cultura boiadeira, as comitivas de Queima do Alho trabalham pela preservação e difusão da culinária do peão de boiadeiro. Constituídas em sua maioria por grupos de amigos que se unem num esforço coletivo em defesa de nossa cultura, elas estão cada vez mais presentes no cenário cultural caipira. 
A Queima do Alho representa a culinária tradicional dos antigos peões de boiadeiros e vem conquistando espaços cada vez mais relevantes na cultural caipira com seu mais famoso e tradicional concurso sendo realizado na Festa do Peão de Barretos onde a tradição é mantida desde a década de 1950. 
A comida é preparada em fogões rústicos conhecidos como trempes e seu cardápio é constituído por quatro pratos básicos: arroz carreteiro, feijão gordo, paçoca de carne e churrasco na chapa. Na apresentação de uma típica comitiva de Queima do Alho o sabor e a cultura se juntam para nos arremessar ao um passado que vive dentro da gente mesmo que não saibamos reconhecê-lo. 

RECEITA para 10 pessoas:


Arroz Carreteiro

Ingredientes:
1 kg de carne-seca
1 kg de arroz
(cebola, alho, pimenta e sal a gosto)

Preparo: Durante o cozimento da carne, a água deve ser trocada duas vezes. Depois de cozida deve ser picada com uma faca até ficar parecida com carne moída (não se deve moer na máquina). Em seguida, a carne deve ser colocada numa panela grossa com banha quente e temperada com cebola, pimenta, alho picado batido e sal. Depois de tostá-la um pouco, adicione o arroz escorrido e bem lavado e refogue por algum tempo mexendo e adicionando água aos poucos durante o cozimento.

Feijão Gordo

Ingredientes: 
1 kg de feijão
100 g de toucinho defumado (bacon)
250 g de linguiça de porco
250 g de torresmo de panceta,
150 g de carne seca frita (pedaços)
200 g de farinha de mandioca
(cebola, alho, pimenta, cheiro verde e sal a gosto)

Preparo: Coloque água para ferver com o feijão. Noutra panela frite um pouco de torresmo na banha. Enquanto o feijão é cozido, adicione os outros ingredientes: panceta de porco, toucinho, torresmo frito, linguiça de porco (cozida e cortada em rodelas finas), bacon, pedaços de gordura, carne seca. Para refogar, frite alho picado em banha com um pouco de pimenta do reino.

Paçoca de Carne

Ingredientes: 
1kg charque picadinho (batido com faca)
½ kg de farinha de mandioca
½ kg de farinha de milho.

Preparo: coloque na panela o óleo quente, já com todo o tempero (principalmente alho picado), adicione a carne e deixe refogar por uns cinco minutos. Depois coloque a carne dentro de um pilão de madeira juntamente com a farinha de mandioca e a de milho e soque até ficar fofinha.

Carne de churrasco

Ingredientes: 
3 kg de carne, água e sal. 

Preparo: Fatie a carne em pedaços grossos e banhe em água com sal com um pouco de alho amassado. Deixe a carne no sereno durante a noite e no dia seguinte asse em chapa de folhão.

Queima do Alho: alimento do corpo e da alma do peão de boiadeiro



Os brasileiros são caipiras!

Em tempos de polarização extrema em que a política brasileira parece se resumir a petistas e tucanos, uma declaração infeliz do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, feita ainda no século passado, sempre surge nas redes sociais e causa polêmica ao lembrar aos caipiras que o Jeca, que nunca existiu, ainda existe.

Na fala que surpreende por partir de um sociólogo, FHC declara, numa visita a Portugal, que depois de viajar para outros países havia descoberto que o brasileiro era caipira. A declaração demonstra preconceito e desinformação por parte do declarante que tentou se explicar depois atribuindo ao termo "caipira" outro significado que não o pejorativo.

Contextos e polêmicas à parte, o fato é que fica difícil acreditar em sua boa intenção ao chamar os brasileiros de caipiras. E se a intenção era nos diminuir com a palavra que nos identifica, ele reproduziu um estereótipo forjado nos confins da chamada Paulistânea e consolidado no século XX, emblematicamente, com Urupês, o livro em que Monteiro Lobato define o caipira como um ser indolente, vagabundo, doente e perigoso, uma espécie de verme. 


Não tenho certeza do que realmente Fernando Henrique quis nos chamar, mas certamente não foi de caipira, não no sentido correto da palavra.


Apenas parte dos brasileiros é caipira, a que nasce ou adota o modo de vida cristalizado na Paulistânea que compreende os estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Espírito Santo e parte do Paraná. Os demais, na consistente definição de Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro, são: caboclos, sertanejos, crioulos e gaúchos. Logo, chamar os brasileiros de caipira foi reduzir o Brasil à Paulistânea. Além disso, ser caipira não nos coloca abaixo de povo algum como parece ter sugerido o ex-presidente. 

Ao contrário, nos eleva, não acima de ninguém, mas ao nível ideal para olharmos nos olhos de qualquer burguês que se julga superior e dividir com ele a relevância cultural que temos de sobra. 

As três grandes culturas que formaram o Brasil se fundiram de forma tão intensa e complexa para formar o caipira que a compreensão do que somos escapa à capacidade cognitiva da burguesia. Sentindo mais o Brasil, o ex-presidente e sociólogo saberia que o uso do termo “caipira” no sentido pejorativo reduz o caipira ao Jeca Tatu (mero personagem literário mitificado) e despreza séculos de cultura, arte e História que a alma caipira ainda conserva, literalmente, em seu conservadorismo característico. 


A distância entre o caipira e o Jeca é tão grande que ultrapassa os domínios da semântica. É muito maior, por exemplo, que a distância entre tucanos e petistas, que às vezes, como diria o caipira mais desbocado, não passa da distância entre a moita e a bananeira.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Orientações para compra do livro Queima do Alho, de Luiz Mozzambani Neto

Livro "Queima do Alho: alimento do corpo
e da alma do peão de boiadeiro", de
Luiz Mozzambani Neto

Compra pela internet:
Peça pelo e-mail:
mozzambani@gmail.com

Facebook:
twitter:

R$25,00
  • Faça o pedido, defina a forma de pagamento, mande o endereço de entrega que eu enviarei pelo correio. Você receberá o código de rastreamento para acompanhar o processo de entrega on-line. 
  • No caso de moradores de Monte Alto, posso entregar pessoalmente e receber na entrega.
Formas de pagamento:
  • Depósito bancário:
Deposite o valor (R$ 25,00) e envie o endereço de remessa do livro junto com os dados do depósito. As despesas postais já estão inclusas no valor.
  • Dados da conta: Banco Bradesco - AG. 0260 C.C. 0560837-6
       Titular: Luiz Mozzambani Neto.

  • Pagamento pelo Pagseguro ou PayPal
Você informa um e-mail e receberá as instruções de pagamento que poderá ser feito através de cartão de crédito, transferência ou boleto bancário. (use os botões de acesso na lateral do blogue!)

Prefácio, por Mazinho Quevedo

"A resenha da Queima do Alho já seria um prato muito farto e delicioso para quem de fome de cultura caipira petisca sempre miseráveis porções. O livro de Luiz MozzambaniNeto vem nos encher de orgulho, está nascendo um grande escritor paulista, que além da prosa opina e enxerga a matéria com novos conceitos, revela de forma simples o que antes complexo nos chegava.
O que mais atrai na cadência da sua escrita é a dinâmica dos tópicos o que torna a leitura um exercício prazeroso e nos revela de maneira sutil todo o seu conhecimento e sua caipiridade, aliás, virtude estampada do começo ao fim desse que é um tratado de bom gosto e sabedoria empírica, chama a tradição, enobrece o legado de uma festa tradicional e projeta dentro do contexto moderno rumos para as novas gerações.
Ler a Queima do Alho de Mozzambani foi um prazer que gostaria de dividir com milhões de aficionados pela música caipira, pela viola , pela folia de Reis, catira , montarias, comitivas e tantas outras manifestações democráticas de cultura."
Mazinho Quevedo 


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Bolsonaro e o estupro da Preta

Foi impossível não ligar a fala do deputado Jair Bolsonaro ao livro Filhos da Preta, afinal, o livro apresenta o estupro de Preta pelo fazendeiro João Manoel já no primeiro parágrafo:

"As palavras de João Manoel a violentaram com a mesma crueldade ofegante do estupro físico: 'Preta, pra mim, só, pra, esfregar!' disse pausadamente misturando palavras, ruídos nasais e respiração."


O estrupo de Preta foi a forma que encontrei para definir a condição da personagem que criei para redefinir a condição da mulher numa sociedade machista e patriarcal. Preta entra em cena sendo estuprada e sai sendo surrada como tantas mulheres nas mãos e nas bocas de tantos bolsonaros
Exagero? 
Quem leu o livro sabe que não!
E quem já foi estuprada (física ou verbalmente) também sabe!
Não sei se o deputado já estuprou alguém fisicamente, mas o estupro verbal foi consumado publicamente  e isso, pelo menos no reino das palavras,  o transforma num estuprador de boca cheia. E a tentativa de usar o contexto das palavras para se safar também é artimanha dos estupradores físicos que o fazem em relação aos atos. 
O machista sempre tem um pretexto para o estupro e no final, seja o estupro físico ou verbal, as mulheres são sempre as culpadas. Afinal, como afirmou Jair Bolsonaro (e consta nos anais do Congresso Nacional), as mulheres são estupradas porque merecem. 

"Não te estupro porque você não merece!" disse o deputado à deputada Maria do Rosário num rompante de machismo, sexismo e maucaratismo que o coloca ao lado de João Manoel, o personagem que criei para definir o machão brasileiro.
Por mais que pareça absurdo tais palavras saírem da boca de um parlamentar eleito para o sétimo mandato, o fato é que sua fala reproduz as falas das ruas e, provavelmente, dos seus eleitores. Não são palavras jogadas ao vento: são palavras que repercutem, ganham força e dão respaldo a estupradores físicos e verbais. 
Diferente do personagem de Filhos da Preta, o deputado Jair Bolsonaro não foi inventado, foi eleito. João Manoel me ajudou a criar o enredo da ficção que fala do estupro de Preta enquanto o deputado ajuda outros deputados a criarem as leis que deveriam nos proteger dos estupradores na realidade. 

João Manoel parou quando eu resolvi que parasse... 
Quem parará Bolsonaro?


escritor caipira


Conheça a versão digital de Filhos da Preta no Amazon 
É só clicar na miniatura do livro para ler
o primeiro capítulo



Caipira não é Jeca! O jeca é mentira do Lobato!

Ilustração de Karlinhus Mozzambani para este
matutamento caipira publicado no livro:
Queima do Alho: alimento do corpo e da
alma do peão de boiadeiro.
O jeca é personagem literário, não é caipira, caipira é de verdade e só gosta da mentira bem contada, que nem chega ser mentira, porque causo bem contado é verdade, coisa acontecida, que a gente jura que aconteceu e se a gente jura, aconteceu (!), porque caipira não jura falso, que é pecado, Deus não gosta, e quando jura, Deus castiga, mas o Jeca é mentira do Lobato (!), no livro Urupês, de 1918,  mentira velha que até o velho Rui Barbosa usou num discurso velho e mentiroso pra jogar nas nossas costas a culpa deste povo lá de cima, que só está lá em cima porque Deus finge que não vê tanta safadeza que acontece desde que o Brasil nem era Brasil direito e o caipira ainda era mameluco e matava índio pra ser filho do pai branco que não queria um filho índio e foi fazendo mamelucos que encheram a Paulistânia desta gente que é o caipira, cuja terra foi roubada, cujo tempo foi tirado, mas que a alma ainda afina a viola do seu jeito pra dizer que vem do peito este jeito de lidar com o nosso tempo nesta terra que é nossa, mesmo estando em outro nome, que o nome não é nada, mas a terra é sagrada e o caipira tem direito de lavrar a sua terra, de lavrar a sua língua, de plantar sua semente, de colher a vida em versos, de tocar sua viola e dizer que debaixo desta terra tem caipiras cujos corpos enterrados são raízes que sustentam nosso jeito de dizer que o caipira não precisa do burguês dizendo as horas, que na roça sempre sobram os minutos que se perdem, dizendo as horas, que as horas do caipira sempre têm esses minutos para a prosa com quem diz o que diz sem ligar pro “jeito certo” da palavra se encaixar nessas regras tão usadas pra calar nossos amores por vergonha dos doutores que nem sabem o que dizem e ensinam o “jeito certo” da gente prosear, como se a gente não soubesse contar histórias, logo a gente que proseia com Deus e todo mundo, com a gente mesmo, e até com passarinho, que caipira nunca fala sozinho, está sempre se escutando, pois a gente se conhece, conhece a vida, conhece o mato e sabe o que acontece quando o coração vai pro mato de mãos dadas com a cabeça, a gente sabe e só finge não saber, muda o rumo da prosa, conta outra história, que história nunca falta, nem vontade de contar, mas a gente não fala com quem só repara nossa fala, não dança com quem só mede nossa roupa e nem se dá com quem só tira o nosso gosto de dizer as histórias do jeito que aconteceu, e se for para mentir, com mentira bem contada, que a gente jura que aconteceu, e se a gente jura, aconteceu (!), que caipira nunca mente, quando muito, simplesmente, faz Literatura colocando palavras inventadas nas bocas do menos sabidos e coragem aumentada nos feitos dos mais brigões, mas isso só para vestir a história com uma roupa mais bonita, que chega a vida sempre com seu vestidinho de chita, a gente também gosta de beleza, de um pouco de aventura, mas não gosta de mentira e o Jeca é mentira do Lobato.

Luiz Mozzambani Neto
escritor e pesquisador caipira

Fluxo de consciência publicado na 2ª edição do livro "Queima do Alho: alimento do corpo e da alma do peão de boiadeiro"

Visite a página do livro:

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Retomando EMBRULHOS, meu primeiro livro!

Livro: Embrulhos, lançado em 2007.
Este final de semana comecei a trabalhar a segunda edição do livro: Embrulhos, lançado em 2007. A ideia é dividi-lo em dois volumes (um para os contos e o outro para o romance) e com isso aprofundar as temáticas abordadas.
Embrulhos foi o primeiro livro que publiquei e trabalha com duas temáticas distintas: a realidade da vida caipira na roça e o delírio literário de um jovem roceiro fascinado por Proust, pela caipirinha Mima e pela ideia de publicar um livro. 
Na 1ª edição, o romance (que conta a história do menino-urubu) foi "embrulhado" nos contos (que contam as histórias de todos os caipiras) e o resultado foi um livro de contos que podia ser lido como se fosse romance e um romance que podia ser lido como um livro de contos. O leitor escolhia a forma de ler e a metalinguística justificava o título.
E para reforçar a ideia de um livro dentro do outro, a diagramação apresentou duas paginações, uma para os contos e outra para o romance e esse jogo literário motivou muitas boas prosas com leitores mais experimentados. 
No processo de separação, o romance ganhará novos
Colônia Amarela: ilustração do artista plástico
Ulisses Zangerolami para a capa da 1ª edição.
personagens e o livro de contos outras histórias que só não foram publicadas na 1ª edição por falta de espaço num livro que não podia ultrapassar as 200 páginas.

Estou separando os contos e o romance com todo cuidado para preservar a essência dos textos, afinal, Embrulhos foi o meu livro e livro é como filho: a gente só deseja o melhor para eles.
Meu objetivo é produzir um bom livro de contos e um bom romance e uma de minhas esperanças é que os leitores de Embrulhos se sintam motivados para a nova leitura depois de quase 10 anos.
A outra esperança é que os livros ganhem o mundo porque livro é filho que a gente quer ver cada vez mais longe e nas mãos de estranhos.



Luiz Mozzambani Neto
Escritor caipira



Conheça a página dos livros: Filhos da Preta e Queima do Alho!